Experiências
Irmã Jeane Bellini reflete sobre Compaixão e Justiça
14/03/2012

Eu gostaria de partilhar com vocês algumas experiências que eu tive que, a meu ver, exemplificam o significado da Compaixão e da Justiça. – Irmã Jeane Bellini

Sou agente voluntária da Pastoral Carcerária e os nossos encontros com as pessoas encarceradas são muito marcantes.

Tentem imaginar o ambiente dos dois presídios em Aparecida de Goiânia, GO: quase 3.000 pessoas encarceradas distribuídas em 21 blocos, cada qual com entre 40 e 200 presos, celas superlotadas. A infiltração nas paredes as deixa úmidas e com manchas pretas. O ambiente grita o “descaso” do Poder Público.
É aí que sobrevivem os/as encarcerados/as. O Estado, omisso, mal atende as necessidades básicas deles/as. O mau cheiro de mofo e esgoto, as grades... a solidão, o isolamento. Alguns/ algumas presos/as ficam angustiados ou desesperado/as, outro/as deprimido/as; a maioria desconfiada uns dos outros.
Quando visitamos nos deparamos com tantas necessidades. Nós somos poucos e temos poucos recursos, além de nós mesmos/as. Alguns/algumas presos/as pedem, outros insistem, outros imploram: orientação jurídica, objetos de higiene pessoal; outro/as pedem que entremos em contato com suas famílias, ou que oremos com eles/as. E, neste ambiente triste, vemos sinais de compaixão e solidariedade entre eles/as.
Uma vez que fomos visitar os presos no pátio da enfermaria, eles nos viram entrando com doações de creme dental e sabonete e, mesmo precisando, não ficaram nos pedindo, mas logo nos pediram para conversar com um colega que estava deprimido há dias. Não levantava do colchão e comia quase nada. Eles nos pediram para falar com a direção e a gerência de saúde e comunicar com a mãe dele. Neste caso ele recebeu o tratamento e melhorou.
Muitas vezes quando visitamos o presídio, os/as agentes, assistentes sociais e ou enfermeiros/as nos contam quando algum preso/a está passando por uma dificuldade e nos pedem conversar com ele/a quando acham que nós poderíamos ajudá-lo.
No bloco feminino, uma agente nos contou que as presas e agentes estavam fazendo uma vaquinha mensalmente para comprar uma cesta de alimentos para repassar a uma mulher que cuidava dos filhos de uma presa, pois a mulher estava passando falta das coisas e o Conselho Tutelar ameaçava tirar as crianças dela. A mesma agente nos pediu para procurar doações de leite ninho para a nenê da mesma presa, cujo leite tinha secado.
Quando um agente prisional ou policial espanca um preso ou maltrata sua família no dia de visita, os outros procuram meios de denunciar os responsáveis, sem por em maior risco o preso envolvido.
Em preparação para trabalharmos nesta pastoral, fomos orientados/as que, “Para ser um/a verdadeiro/a evangelizador/a, é necessário, antes de tudo, deixar-se evangelizar, sendo ouvinte atento ao que Deus nos fala.” Eu diria ainda, “antes de dar testemunho, primeiro ser testemunho”. Estar aberto/a para acolher os sinais da ação de Deus no meio deles/delas.

O ambiente impessoal e desumano pesa não somente nos presos/as, mas também nos agentes, policiais e funcionários. Os servidores públicos que se comportam com dignidade e respeito nos chamam a atenção. Procuramos dar-lhes apoio, manifestar nossa solidariedade, pois eles/as sofrem interiormente quando presenciam gestos de abuso do poder ou de tortura praticados por outros contra os presos/as.

Uma última observação: a maioria de nós é mulher, algumas somos religiosas. Os/as presos/as nos chamam a todas “irmãs”, quer dizer, que podem contar conosco.

Estas experiências e muitas outras têm confirmado minha convicção de que há vários caminhos pelos quais aprendemos o significado da Compaixão e Justiça. Nossa própria experiência é crucial. Quem presencia os atos e atitudes de Compaixão e Justiça de outras pessoas se sente motivada/o a seguir o seu exemplo. O essencial é reconhecer o outro/ a outra como seu próximo /sua próxima. A partir daí, a Compaixão e a Justiça brotam da relação.

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