Ministérios
Irmã Jeane Bellini descreve o seu ministério
21/02/2018

Entendo que ministério significa um serviço assumido por uma pessoa pela graça de Deus, para o bem comum, o bem de outras pessoas. Antes de perceber que Deus estava me chamando para ser uma Irmã de São José, eu já sentia que eu queria trabalhar com gente. Eu gostava de biologia, mas não me via como uma cientista, por isso, optei por ser uma professora, para estar com outras pessoas, e resolvi lecionar biologia. No segundo ano da minha carreira profissional, entrei na congregação das Irmãs de São Jose em Rochester, Nova York, nos Estados Unidos. Nos anos seguintes percebi que eu gostava muito de conhecer as alunas e suas famílias, acompanha-la em seus desafios e dificuldades e superações – gostava mais que a própria matéria que eu ensinava. Descobri que a vocação religiosa, de ser uma irmã, próxima das pessoas, era mais importante para mim que o trabalho específico que eu assumia.

Em 1976, vim ao Brasil, conviver com as irmãs que já estavam, e ajudar na pastoral. Fui morar com elas no sudoeste de Goiás, nos municípios vizinhos de Caçu e Cachoeira Alta. Descobri logo que o trabalho pastoral é outro ministério que permite entrar na vida das pessoas, conviver e caminhar com elas. As duas cidades eram pequenas, a maioria do povo ainda estava ligada à terra, ou tinha terra, ou trabalhava na terra dos outros. Em 1981, veio um padre de Goiânia, nos visitar e nos contou que fazia parte da Comissão Pastoral da Terra, e nos convidou a um encontro para conhecer a CPT. Eu fui com um padre, uma irmã e três lavradores, entre eles, o Nelcides, de Caçu.

O Nelcides se encontrou e se encantou no encontro; me disse depois, que pela primeira vez ele via que era possível integrar sua militância como trabalhador rural e sua fé cristã. Eu percebi que a CPT me propiciava oportunidades para compreender melhor a realidade do campo e conhecer experiências de outros agentes de pastoral que lidavam com situações parecidas com aquelas que eu encontrava em Caçu. Animei estudos bíblicos, utilizando a metodologia da educação popular, e apoiei a criação e organização do sindicato de trabalhadores rurais. Naturalmente Nelcides e os outros trabalhadores rurais partilharam e celebraram a sua fé com outros, pois Deus nos criou iguais, livres, nos quer bem e nos dá a graça de construir a união no meio dos desafios encontrados.

Em 1983 fui com a Irmã Suzana à região de São Felix do Araguaia, integrar na equipe pastoral da Prelazia de São Felix do Araguaia, junto com o bispo Pedro Casaldáliga. O que nos atraiu à Prelazia foi o jeito com que a Igreja se organizava e a maneira com que os e as agentes de pastoral se relacionavam com o povo da região. Conviviam com o povo nas pequenas cidades e visitavam regularmente as comunidades rurais, de bicicleta, de ônibus, de carona numa camioneta, num jipe velho.... Dadas as distancias, nós ficávamos 2-3 dias em cada visita, visitando as famílias de casa em casa, dormindo em suas casas, e no ultimo dia reunindo todo mundo. Trocávamos notícias sobre os acontecimentos recentes – no município, no estado e no país, conversamos sobre os conflitos de terra na região e a necessidade de organização para resistir às pressões de grileiros. Sempre terminávamos a visita com uma celebração da palavra ou da Eucaristia. Foi assim que criamos laços fortes com as famílias, que nos acolhiam muito bem. De novo, como anos atrás, em Rochester, as pessoas me deixavam entrar em suas vidas, partilhavam as suas dificuldades e seus sonhos comigo. Me sentia muito irmã delas.

Em 2006, mudei para Goiânia, uma cidade grande com uma realidade muito diferente das outras que eu conheci e nas quais vivi. Me ofereci como voluntária à equipe da Secretaria Nacional da CPT, onde ajudei cuidar da biblioteca durante dois anos, depois coordenei uma equipe que digitalizou o acervo de centenas de milhares de documentos, na grande maioria, sobre conflitos de terra. Nestes mesmos anos, eu acompanhava uma comunidade no noroeste de Goiânia, no Parque Tremendão, e fiz parte da equipe da Pastoral Carcerária, visitando os e as presas no presidio em Aparecida de Goiânia.

Desde 2015 faço parte da Coordenação Executiva Nacional da CPT e acompanho as equipes na Secretaria Nacional em Goiânia. Tendo servido em vários lugares, conheço bem várias realidades e minha longa caminhada de CPT me ajuda a contribuir indiretamente às equipes da CPT espalhadas pelo país.
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