NOSSAS BANDEIRAS DE LUTA E TRANSFORMAÇÃO

Leia também:

➣ Comunidade de Vida
➣ Carta da Terra
➣ Viver Bem
➣ Entrevista com Irmã Ilia Delio
➣ Discurso do Papa Francisco
➣ Eucaristia fraterna e subversiva
(Revista do Brasil, No. 96, junho de 2014)

➣ Dez medidas contra a corrupção


Entrevista com Judy Cannato

Judy Cannato

Publicamos agora uma entrevista esclarecedora com Judy Cannato, autora de “Radical Amazement” (Deslumbramento Radical) e “Field of Compassion” (O Campo da Compaixão), os livros em que ela apresenta uma rica visão da espiritualidade vista através das expansivas lentes da Nova Cosmologia e das suas implicações.


Judy Cannato faleceu em 2011; era professora de teologia, facilitadora de retiros, uma palestrante muito requisitada e escritora de vários livros e artigos sobre a espiritualidade. Era Associada da Congregação das Irmãs de São José de Cleveland, EUA, foi casada e mãe de dois filhos.


Vamos nos concentrar na natureza transformadora da compaixão, colhendo inspiração nos escritos de Judy Cannato que afirma: "Quando ressoa em nós o amor, quando vivemos e respiramos as vibrações da energia do amor, contribuímos à energia do Campo da Compaixão”. É um privilégio contarmos com Judy Cannato que vem aqui partilhar conosco suas proféticas percepções.


O Capítulo das Irmãs de São José de Rochester se comprometeu de aprofundar nossa compreensão e prática de Compaixão e Justiça.


Esperamos que visitem nosso site frequentemente e convidamos a todos para se unirem a nós na nossa missão de gerar compaixão e esperança na comunidade da vida.


OBS: Agradecemos as Irmãs Franciscanas dos Pobres que partilham conosco esta entrevista. Muito obrigada, Irmãs!


Judy, em seu livro “Campo da Compaixão” você combina a História do Universo à História Cristã, a partir de um ponto de vista teológico, e diz que a salvação não é uma questão “minha” ou “nossa”, mas sim do cosmo como um todo. Poderia nos dizer algo mais sobre isso?


Essencialmente, o que estamos precisando fazer é nos “salvar” do nosso egoísmo, porque ele é o pedaço de nós arraigado no medo e sustentado pelo nosso desejo de controlar. O egoísmo é um “eu” muito pequeno que cria em nós a ilusão de que vivemos separados uns dos outros. Não conseguimos ver nossas interconexões que são a base de tudo o que é vivo. Não conseguimos perceber que “tudo o que existe” é sustentado por relacionamentos. Afinal, somos quem somos por meio das nossas conexões e não por meio da separação!

Somos participantes do singular e imenso evento da criação. Um modo de conceber a criação é pensá-la como sendo uma única e permanente ação do Espirito. Do “Big Bang” para diante, através da evolução das estrelas e das galáxias, até a vida emergir neste planeta em todas as suas formas, bem como na expansão permanente do cosmo, o Criador continua trabalhando – pulsando e pressionando de dentro dessa única criação – e capacitando-a para que se torne cada vez mais e mais. Considero essencial reconhecermos esse ponto crítico. A criação é uma só: a mesma na qual todos vivemos e nos movemos e na qual está incluído também o nosso ser. Por isso, qualquer outra noção de salvação que imaginar algo menor do que “tudo aquilo que existe”, nunca poderá ser suficiente.

Como as formas de vida são tão complexamente entrelaçadas entre si, nenhum de nós poderá ser salvo a menos que todos sejamos salvos. Neste contexto, a salvação é um único processo envolvendo a inteira criação. Mas para isso acontecer, cada um de nós deverá assumir a responsabilidade de se envolver pessoal e completamente, tanto quanto possível. Cada um de nós deverá assumir sua própria capacidade pessoal de autopoiesis, ou seja, literalmente, de “auto-criação”. Cada um de nós deverá se tornar tão plenamente humano e completamente vivo quanto puder. E para conseguir isso, precisamos nos transformar em seres humanos capazes de nos conectarmos entre nós de maneira saudável e criativa, para podermos oferecer a nossa contribuição à evolução da nossa espécie e do inteiro cosmo.


Na sua opinião, como é que a Nova Cosmologia está transformando a vida espiritual, especialmente no sentido de gerar compaixão, praticando -a? Como é que a humanidade está evoluindo a partir desses novos conceitos?


Cada aspecto da nossa vida é arraigado numa visão de mundo particular, num paradigma, numa lente através da qual percebemos a nossa experiência. E a vida espiritual não é uma excessão. A Nova Cosmologia desafia a antiga concepção de mundo que via o cosmo como uma máquina composta de peças e partes separadas, quando afirma que o mundo é um todo orgânico, uma única criação na qual tudo está interconectado, de maneira integral. Claro que os místicos sempre insistiram que a inteira criação é um todo unificado, mas a maioria dos seres humanos não tem experiência desse tipo de consciência porque não consegue perceber a união essencial que é a base da consciência mística.

A Nova Cosmologia – mediante as descobertas da teoria dos quanta e da astrofísica – hoje em dia captadas com tanta nitidez pelo Telescópio Espacial Hubble – constata essa interconexão de maneira muito concreta e nos expõe a um universo em evolução, dando-nos um senso da amplidão da criação e de como nós fazemos parte do seu contínuo emergir. Em outras palavras, a Nova Cosmologia nos oferece um impulso para a consciência mística que está transformando a nossa vida espiritual. Depois que compreendemos os princípios fundamentais da Nova Cosmologia, não conseguimos mais nos relacionar da mesma forma nem com Deus, nem entre nós, nem com a criação. Reconhecendo que pertencemos ao cosmo e que o cosmo é enraizado em nós, transformamos todas as nossas relações. Saber que “tudo é um”, que “o outro” é, de certa maneira, “meu próprio ser”, gera respostas e relações caracterizadas pela solicitude e pela compaixão.


À medida que vai aumentando o número das pessoas que põe em prática esse modo de ver as coisas, a humanidade como um todo vai se transformando. Um dos modos que temos para definir essa transformação é dizer que um “campo mórfico” emergiu, continua crescendo e, à medida que cresce, vai atraindo aqueles que o integrarão e viverão graças à misericordiosa consciência de que todos somos um único ser!

Em seus escritos, você nos convoca a sermos co-criadores com Deus, in-carnando as quatro atitudes da amplidão, da contemplação, do empenho e da imaginação. Como é que essas posturas nos dão a liberdade de ser-mos mais misericordiosos e de vivermos de maneira mais compassiva?



As pessoas que são genuinamente co-criativas agem por meio de uma consciência expandida que reconhece a unidade essencial da inteira criação. A amplidão é a capacidade que nos permite passar daquilo que é “meu” para aquilo que é “nosso”. A palavra “compaixão” significa, literalmente, “sofrer com o outro a partir de minhas próprias vísceras”. O que, para mim, não só indica que entrei no espaço do outro por empatia, como também que permiti que a presença do outro entrasse, de alguma forma, no meu espaço e que se tornasse parte da minha consciência e do meu espírito. Tenho tanta consideração pelo outro que devo reconhecer que nós dois somos um só!

A contemplação é um conceito intimamente relacionado à amplidão. De fato, poderíamos dizer que a amplidão provém da contemplação, a qual é, essencialmente, a nossa capacidade de ver. “Olhar longamente e com amor para aquilo que é real” é uma antiga definição de contemplação. Hoje em dia, agimos muitas vezes num ritmo tão acelerado e tão cheios de julgamentos prévios que nem conseguimos ver aquilo que temos diante de nós! Costumo promover a meditação por ser uma prática capaz de nos desacelerar, de nos abrir e de nos ensinar o que é real, tanto no interior de nós mesmos como à nossa volta. É justamente a prática da meditação que nos permite sermos contemplativos.

Mas apesar de serem essenciais, a contemplação e a amplidão não são suficientes. Precisamos ainda nos empenhar em viver nesse espaço. Esse empenho envolve um agir cheio de integridade, que opera na nossa amplidão e na nossa visão contemplativa. Não é suficiente reconhecermos a unidade essencial do cosmo, que inclui todos os seres existentes. Cada ação que assumimos deve refletir essa noção, de alguma maneira. O ideal é que o nosso empenho receba informações tanto da amplidão como da postura contemplativa. Desse modo, não agimos compulsivamente e estabelecemos intenções co-criativas.

Finalmente, é através da imaginação que esse novo nível de consciência encontra sua própria expressão. Somos a primeira geração que está podendo ver de maneira tão tangível a conexão essencial entre todas as coisas que existem, o que nos impele a viver num espaço totalmente novo. Não precisamos de mapas, nem de definições: basta simplesmente nos entregarmos às imaginações que foram confiadas ao Espírito. É isso o que significa viver de maneira co-criativa.

Judy, você escreveu: "Quando ressoa em nós o amor, quando vivemos e respiramos as vibrações da energia do amor, contribuímos à energia do Campo da Compaixão”. Que implicações isso comporta para nós e para a inteira criação?



Mais de um século atrás, o físico Albert Einstein chocou a humanidade quando revelou a fórmula da relatividade: E = mc² (a energia "E" é igual à massa "m", multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz, "c" ao quadrado). A matéria e a energia, afirmou ele, são simplesmente duas manifestações da mesma coisa. Essa nova consciência nos convidou a uma mudança não só além do materialismo, como também em direção a um âmbito muito mais profundo. Nos convidou a deixar de nos considerarmos, basicamente, como corpos físicos ou seres materiais, porque na verdade somos feixes de energia, uma manifestação de vibrações energéticas que interagem a um nível muito sutil. Mas apesar de ser sutil, a energia não deixa de ser real. Como algumas pessoas têm dificuldade em compreender essa linguagem da energia, talvez seja útil darmos um exemplo prático.

Nossas emoções, por exemplo, são sistemas de energia que podemos reconhecer com facilidade.

Vamos fazer o seguinte exercício de energia . . .



Sabemos que a energia se ata em feixes nas regiões imateriais de influência conhecidas como “campos”. E sabemos que a compaixão em si é um campo intensamente vibrante que contém o tipo de energia necessário para transformar a humanidade, curar o planeta e participar co-criativamente da evolução do cosmo. Quando vibra em cada um de nós o amor e a compaixão, nossa energia é misteriosamente unida à energia de amor e compaixão já existente ao redor de todo o planeta, aumentando o Campo de Compaixão e tornando o seu ressoar uma manifestação que estimula uma força muito poderosa de transformação e de cura. Poderia haver um motivo de esperança maior do que esse para a comunidade da vida?”

Questões para Reflexão: De que maneira a Nova Cosmologia está transformando as decisões que você assume na vida, especialmente na prática da compaixão?

Como foi para você fazer o exercício de energia acima mencionado? Poderia partilhar o que foi reconfortante e o que foi um desafio, naquilo que sentiu?

Judy Cannato nos diz: “. . . a compaixão em si é um campo intensamente vibrante que contém o tipo de energia necessário para transformar a humanidade, curar o planeta e participar co-criativamente da evolução do cosmo.” Você vê alguma conexão entre o carisma de cura e/ou a sua própria vida?

Como a realidade de um “Campo de Compaixão” é motivo de esperança para você ?

VoltarTopo